Logoterapeuta com paralisia cerebral quebra preconceitos e ajuda pacientes a reencontrar propósito em Goianésia
Em um país onde ansiedade e falta de propósito atingem números recordes, uma história nascida em Goianésia mostra que os limites podem virar ponte. A escritora, historiadora e logoterapeuta Lívia Barbosa Cruz, que convive com paralisia cerebral, é possivelmente a primeira profissional da área com essa condição no estado — e talvez no Brasil.
Formada pelo Instituto Em Rota, um dos principais centros de logoterapia do país e conveniado à Universidade Ítalo Brasileiro, ela transformou a própria trajetória em missão: ajudar pessoas a encontrar sentido para viver, mesmo em meio à dor. Inspirada em Viktor Frankl, Lívia defende que nenhuma vida está condenada ao vazio, ainda que existam limitações ou sofrimento.
O primeiro passo foi enfrentar o próprio preconceito. Com o projeto “Atendimento Logoterapêutico com Valor Social”, Lívia passou a oferecer sessões a preços acessíveis para ampliar o acesso à saúde emocional. No início, a insegurança vinha dos dois lados da sala. Alguns pacientes chegavam com dúvidas sobre fazer terapia com uma profissional com paralisia cerebral. Bastaram as primeiras conversas para as barreiras caírem. Com escuta sensível e domínio da abordagem frankliana, ela conduz pacientes em crises existenciais a redescobrir caminhos de sentido. Hoje, muitos que tinham receio são os que mais testemunham as transformações após o processo.
O segundo projeto nasceu do amor pelos livros. No grupo “Literatura com Sentido”, Lívia une leitura, reflexão e partilha. A proposta é discutir obras que tocam questões profundas da existência humana. A estreia foi com O Guardião de Memórias, que aborda escolhas, perdas e os efeitos das decisões ao longo da vida. Mais que clube de leitura, o espaço virou ambiente de crescimento pessoal, onde participantes dialogam sobre o que realmente importa. A literatura entra como ferramenta terapêutica, provocando perguntas que atravessam a vida de todos.
A força do trabalho está na coerência com a própria história. Mesmo com as limitações motoras, Lívia escreve, atende, conduz grupos e compartilha sua trajetória para inspirar. Sua vida materializa uma das frases mais conhecidas de Frankl: “Quando já não podemos mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos”. É a partir dessa convicção que ela mostra, na prática, que o sentido não depende das circunstâncias, mas da resposta que cada um escolhe dar a elas. Entre consultório e roda de leitura, Lívia Barbosa Cruz vem rompendo estigmas e provando que vulnerabilidade também pode ser potência. Em Goianésia, seus dois projetos já impactam pacientes e leitores que buscavam mais que alívio: buscavam propósito. E encontram, justamente, na profissional que transformou o próprio limite em missão.
