26 de Fevereiro de 2018

As armas de meus pais

Muito tem se falado atualmente, devido aos recentes acontecimentos, sobre o controle (ou a ausência dele) de armas, com especial atenção para a possibilidade de sua posse pela população civil. Destarte, faz-se extremamente necessária uma análise filosófica que não se atenha somente ao mérito, às questões técnicas ou às implicações disto, mas também de seus aspectos ético e político.

Ora, o armamento civil não é fenômeno recente. Entretanto, essa questão permeia searas da vida humana que foram alteradas com o avanço da sociedade e que não mais fazem parte de nossa estrutura de pensamento. Um exemplo clássico, apesar de básico, são duas sociedades gregas distintas, Atenas e Esparta. Não é necessário introduzir os aspectos gerais destas duas civilizações, mas outros não se fazem tão evidentes.

Bastião e expoente da filosofia grega, Atenas foi uma cidade construída a duras penas, com diversas formas de governo díspares em curtos espaços de tempo, oscilando entre tirania e democracia, tendo enfrentado diversas guerras até que atingisse seu apogeu. Por outro lado, a sempre militarizada Esparta não era tão diferente neste aspecto. Aliás, o território grego quase que como um todo sempre foi um palco de intensos conflitos devido à sua posição privilegiada entre o reino persa (atual Turquia e Oriente-Médio) e a Europa. Vale ressaltar que a Grécia detinha parte da Ásia Menor e do território onde hoje ficam Bulgária, Albânia e Macedônia.

Não obstante, a grande militarização destas duas sociedades tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes entre si provinha de uma mesma fonte: a forma como o homem grego era formado enquanto cidadão da pólis, a paideia. Ora, todo cidadão livre grego, com pequenas diferenças de uma cidade-Estado para outra, passava por um processo de formação geral que imbuía nele a capacidade de pensar sua própria existência em relação à sua cultura, tornando-o capaz não somente de ter voz ativa e ser ouvido em sua sociedade, mas também de liderá-la.

Esta formação incluía o ensino da Filosofia, da Religião, da Geometria, da Retórica, entre outros, prezando por um minucioso cuidado com a alma, porém não abdicando da outra faceta do aspecto humano. O cuidado com corpo era ensinado, em geral, na Ginástica, que ocorria em ginásios públicos e era conduzida por oficiais militares, que garantiam o ingresso daqueles alunos na vida militar, obrigatória na Hélade. Após o cumprimento de suas obrigações militares, o cidadão retornava aos afazeres de sua responsabilidade civil, apesar de não se desligar completamente daquelas, atuando numa espécie de “reserva” enquanto sua cidade não carecesse de seu auxílio no contingente.

Percebemos, então, que a prática militar não era apenas obrigatória, mas constituía parte importante da vida do cidadão livre grego, que sabia ao menos como defender sua cidade de ataques, tanto internos quanto externos, pois mesmo as cidades-Estado gregas não eram livres de crimes.

Mutatis mutandis, é possível notar grande dessemelhança entre aquela sociedade, co-fundadora de toda a civilização ocidental, e esta última, onde já não mais se formam cidadãos completos, quiçá militarizados. Sem proferir (ainda) juízo de valor acerca desta afirmação, analisemo-na por um segundo.

Enquanto a sociedade grega se preocupava em formar cidadãos que pudessem aferir um mínimo de significado da realidade que os cercava, nossa sociedade atual pulveriza os conhecimentos e a cultura, escalonando e subdividindo aquilo que deveria uni-la. Apesar de insuficiente para justificar os problemas sociais que enfrentamos, esta afirmação não deixa de ser sintomática. Não mais nos preocupamos em formar cidadãos com pelo menos um fundamento básico que os ensine a conviver em sociedade. Isto traz à tona outro aspecto da paideia grega que não mais valorizamos: a tradição.

Aparentemente despreocupada com a preservação dos costumes de nossos pais e avós, nossa sociedade demonstra extrema preocupação com questões de ordem secundária, tais como a politização precoce dos jovens, a exaltação do corpo em detrimento da alma, a crítica ao “sistema” (seja lá o que isso signifique), entre outras. Obviamente, não estamos aqui defendendo que se viva como aqueles, mas ao menos tentar preservar aquilo de bom que chegou até nós é o mínimo que devemos fazer. Para exemplificar, peço licença ao leitor para dar meu testemunho.

Como qualquer criança, eu sempre estive inserido em pelo menos mais de uma relação social de uma vez, o que me causava imensa curiosidade acerca do funcionamento daquelas. Decerto, a que mais me interessava era a relação com meus pais. Desde sempre muito rígidos, meus pais me criaram sob uma égide de tradições religiosas e morais provenientes dos dois lados da família com as quais rapidamente me acostumei, apesar de algumas não cessarem de me espantar por bastante tempo, principalmente na adolescência.

Sendo de uma cidade interiorana, eu estava ciente da existência de armas de diversos tipos ao meu redor, pois em minha infância as pessoas não hesitavam em portar seus canivetes, suas facas para cortar laranja no meio da tarde, seus revólveres e espingardas usados na zona rural, e etc. Apesar disso, nunca estive realmente próximo de uma arma, nem branca, pois não era necessário que meus pais falassem mais de uma vez que “aquilo não era brinquedo”. Naquela época, meu pai e meu avô compartilhavam uma velha espingarda calibre 12, usada por meu pai em raríssimas ocasiões para espantar as aves de rapina que porventura estivessem próximas aos pássaros que ele criava em nossa casa, e cuja localização sempre me foi conhecida quando estava de posse dele.

Não obstante, aquilo sempre se me aparentou como algo de imenso potencial ofensivo e permanecia guardada na parte mais alta de um guarda-roupa embutido que havia em nossa antiga casa, informando de maneira nem tão velada assim que aquilo era estritamente proibido a pessoas com estatura insuficiente para alcançá-la sem o apoio de uma escada ou algo do tipo. Esta informação bastava para eu saber que aquilo não era para o meu bico e que não devia fazer nenhum esforço para mudar esta situação. Não que eu fizesse algum, mas o nobre leitor compreenderá que, como qualquer criança, eu fabricava armas de mentira com pedaços de pau, com lego e até com gesso, quando este era encontrado numa forma que se assemelhasse a uma pistola ou algo do tipo. Apesar disso, nunca me interessei nem por estilingues e todos os projéteis que eu disparava eram apenas imaginários contra inimigos imaginários. As armas de meus pais, quais sejam a tradição e a moral, foram necessárias para me privar de querer algo além disso.

Não desejo que o leitor tome meu testemunho como absoluto ou como modelo para exemplificar nada além daquilo que está óbvio: a ciência de que uma arma de qualquer tipo não é algo para inimputáveis devia ser consenso básico em nossa sociedade, algo que parece estar desvanecendo com o tempo. Sempre haverá aqueles para argumentar que eu tive uma família que me ensinou e que a minha realidade não é a mesma de todas as crianças e etc. Eu compreendo isto. Mas a intenção deste testemunho não é esta, é chamar a atenção para a possível correlação entre o abandono de nossas tradições e daquilo que realmente importa para a formação de um cidadão capaz de fazer-se presente em sua sociedade, e o aumento exponencial de crimes contra a vida, ocorrido nos últimos quinze anos.

Uma sociedade que não se estabelece sobre bases sólidas ou que deliberadamente rompe com estas a título de “modernização” ou de “progresso” frente a um pensamento tido por estes reformadores como “retrógrado” ou “ultrapassado” está fadada apenas a um mergulho sem volta em um abismo intransponível de sombra e caos inimagináveis, cuja contagem de vidas perdidas por todos os meios possíveis tende somente a aumentar.

O homem não é o lobo do próprio homem, mas quem deseja concretizar esta situação em nossa sociedade, ou seja, quem deseja redefinir o “homem moderno” a partir de seu status mais primário e animalesco, reduzindo-o a um bichinho a ser adestrado pelas normas do “politicamente correto”, talvez deva assumir pelo menos metade da responsabilidade pela contagem de corpos.