Uma das atividades mais corriqueiras e naturais do nosso dia-a-dia são nossas escolhas. Logo ao levantarmos pela manhã, decidimos substituir um pouco a mais de sono por um dia de trabalho árduo. Ao decidir nossa rota até o trabalho, calculamos cada trajeto e decidimos tomar aquele que melhor atende nossas preferências e restrições. E assim por diante, podemos notar que a arte de fazer escolhas, ou tomar decisões, é uma atitude inerente ao ser humano. Todos nós, de uma maneira ou outra, precisamos fazê-las.

Escolhas, ou decisões, são compostas por características desejáveis e indesejáveis – ou, como geralmente falamos: a relação entre custos x benefícios. Aqui, o balanço entre esses dois componentes, nós chamamos de benefício líquido de uma escolha. Isso nada mais é do que o saldo (positivo ou negativo) de uma escolha. Por exemplo, suponha que um indivíduo ao decidir seu trajeto até o trabalho tenha três opções: ônibus, carro ou bicicleta. O trajeto de ônibus é o mais seguro, porém toma muito tempo, já o trajeto de carro é o mais curto, porém o mais caro, enquanto o de bicicleta é o mais econômico, porém o mais longo. Note que o único que tem informação suficiente para definir qual o melhor trajeto é apenas este indivíduo. Pois, diferentes pessoas têm valorações distintas para características como (des)utilidade no tráfego, utilidade ao dirigir, utilidade ao exercer uma atividade física (ciclismo), etc. Obviamente, indivíduos também têm restrições diferentes, como orçamentárias e de tempo. Portanto, cada um faz suas escolhas limitadas as suas restrições e preferências. O indivíduo A pode preferir ir ao trabalho de carro, porque ele tem um bom salário e também gosta de dirigir; enquanto o indivíduo B pode preferir ir ao trabalho de bicicleta, porque ele valora bastante sua saúde e não possui tantas restrições de agenda.

Deste modo, ao passo que discutimos escolhas, um conceito naturalmente emerge: a ideia de custo de oportunidade (ou custo econômico de uma ação). Em suma, ao decidir entre duas ou mais opções, logicamente deixamos uma ou algumas de lado – já que, infelizmente, não podemos por exemplo, ir ao trabalho de carro e ônibus ao mesmo tempo! Portanto, o custo de oportunidade nada mais é do que o benefício líquido da nossa melhor possível decisão que tivermos que abrir mão. No exemplo mencionado acima, caso as preferências do individuo sejam tais que seguem a ordem: carro> ônibus > bicicleta (aqui o símbolo > representa uma ordem de preferência estrita). Ao escolher ir ao trabalho de carro (sua decisão racional segundo suas preferências), então o custo de oportunidade dessa escolha é o benefício líquido (custo x benefício) de ir ao trabalho de ônibus. Caso este mesmo indivíduo seja consistente com suas escolhas, podemos dizer que ele é individualmente racional. Note que racionalidade aqui não indica nenhum sentido de super inteligência, simplesmente significa fazer as melhores escolhas segundo suas preferências e restrições. E que em cada decisão, inevitavelmente o indivíduo usufruirá das características desejáveis e indesejáveis dessa escolha e também não usufruirá do benefício líquido da sua segunda melhor opção (ela simplesmente ficou para trás!). Aqui racionalidade é um conceito muito mais ligado a sobrevivência do que a inteligência per se.

Todo esse modelo é pensado no âmbito do indivíduo, ou seja, estamos falando sobre escolhas individuais. Quando a discussão é sobre escolhas sociais, a história fica bem mais complexa. Pois agora, o que realmente importa são as preferenciais sociais de um determinado grupo. Podemos pensar especificamente em preferências dos habitantes de um determinado município ou em preferências de um determinado grupo de ciclistas. Em suma, não podemos aplicar a mesma análise racional de antes porque as preferências sociais, na maioria das vezes, não convergem às preferenciais de um indivíduo específico (tampouco essas preferências estão sob as mesmas restrições). Por exemplo, um governante tem acesso a um recurso do governo estadual ou federal que pode ser aplicado em três áreas: saúde, educação ou lazer. Individualmente, o governante pode ter alguma área como sua principal preferência por questões de predileção pessoal. Embora, ao agir como um governante benevolente ele deveria optar pela escolha que apresenta o maior benefício líquido para toda sociedade, não só simplesmente para ele ou para o grupo que se enquadra em suas mesmas características (preferências e restrições). Olhando para a realidade do Brasil, um país emergente, mas com grande desigualdade social, podemos inferir que investimentos em saúde e educação produzem benefícios líquidos muito maiores, principalmente no longo prazo, que investimentos em lazer. Como se sabe, o Estado brasileiro deveria focar seus investimentos em políticas públicas que, por exemplo: aumentam a qualidade da educação básica, algo que comprovadamente majora a produtividade do trabalhador; e, melhoram a qualidade da segurança pública, reduzindo os índices de violência para incentivar o turismo.

Trazendo essa reflexão para Goianésia, devemos analisar que, a gestão atual escolheu elevar o gasto com contratação de pessoal e alocar alguns milhões de reais em grandes eventos festivos, reduzindo o gasto com saúde, mesmo após a grave recessão de 2015/2016. Ao que tudo indica, a população aprovou esta política, porém, inesperadamente surgiu a pandemia de covid-19, que tem causado uma grave crise econômica, e, evidenciou o quanto nosso sistema de saúde é precário. Nesse contexto, é inevitável pensar que com estes milhões gastos nos últimos anos, poderia ter sido construído um Hospital Municipal de grande porte com leitos de UTI, algo que até hoje não possuímos e seria essencial nesta crise sanitária. Ainda, com parte deste recurso poderíamos ter melhorado a infraestrutura do município, facilitando a vida dos empresários e produtores rurais da região. Portanto, está claro que essa discussão é importantíssima, e sugerimos um debate mais amplo acerca das nossas reais necessidades enquanto uma pequena cidade de um país emergente.

Isso não quer dizer que investimento em lazer não traz nenhuma característica desejável, como discutimos antes cada escolha é composta por uma amálgama de características, sejam elas boas ou ruins, mas as prioridades de uma sociedade em desenvolvimento – como defendemos — deveriam ser outras.

Isto tudo do ponto de vista econômico nos mostra que um governante ao tomar uma decisão, não só arca com as características indesejáveis dessa ação (por exemplo, o custo monetário de fato), mas também arca com seu custo de oportunidade. Ao decidir alocar recursos em lazer, o governante não só gastou os recursos monetários para aquela ação, mas também abriu mão do benefício líquido em educação ou saúde que poderia ser aproveitado por todos aqueles habitantes. Esse é um conceito poderosíssimo e que muitas vezes é deixado de lado por políticos e burocratas que implementam políticas públicas. O mais gritante é, esta é uma heurística que seguimos no nosso dia-a-dia e sem ela provavelmente não poderíamos estar aqui contando essa história. Qual o por que de isso também não ser levado em consideração na esfera de escolhas sociais?

 

 

Autores:

Felipe Carneiro de Figueredo, economista pela Universidade Federal de São Paulo, Mestre em Economia pela Universidade de Brasília e atualmente é estudante de PhD em Economia na University of Washington.

 

Juliano Rodrigues de Souza Junior

Graduado em Direito pela Universidade Católica de Brasília e Advogado em Goianésia.